Claudia Gomes de Alencar, é uma das artistas mais versáteis e inquietas de sua geração: atriz, escritora, poeta, artista plástica e professora. Formada em Teatro pela Escola de Comunicações e Artes da USP e com pós-graduação em Direção Teatral pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), ela construiu uma trajetória que atravessa televisão, cinema, teatro, literatura e artes visuais, mantendo sempre uma marca de intensidade e reflexão sobre o mundo e sobre si mesma. Na capa da Revista Extraordinária, Claudia Alencar não representa apenas uma carreira de mais de quatro décadas: encarna a potência da mulher que se reinventa, que transforma dor em obra, maturidade em liberdade e vulnerabilidade em coragem. Ela segue em cena – seja nos palcos, nas telas, nos livros ou nas redes sociais – como quem recusa qualquer rótulo que a coloque em prateleiras do passado. Juventude e escrita Muito antes de se tornar símbolo sexual da TV brasileira nos anos 80 e 90, Claudia já desafiava estruturas através da palavra. Aos 13 anos, deu início a uma prática diária que mantém até hoje: o hábito de escrever diários. Aos 14, venceu um concurso nacional de contos promovido pelo jornal Correio da Manhã, mostrando que a escrita seria um eixo constante e vital em toda a sua vida. A carreira que virou referência A estreia profissional veio em 1975, em um teleteatro da TV Cultura dirigido por Antunes Filho, “Somos todos do Jardim da Infância”, de Domingos de Oliveira. A partir daí, sua trajetória se espalhou por praticamente todas as grandes emissoras: TV Tupi, Band, Globo, SBT, Manchete e Record. Na televisão, Claudia marca presença em 32 novelas e minisséries,
No cinema, seu currículo contempla 17 longas-metragens, incluindo títulos como “Doce Delírio” (1982), “A Freira e a Tortura” (1983), “Atração Satânica” (1989), “Xuxa e os Duendes” (2001), “Réquiem para Laura Martin” (2011), “Um Suburbano Sortudo” (2016) e “Talvez uma História de Amor” (2018). Em cada projeto, transitou entre o drama, o terror, a comédia e o cinema popular, comprovando uma versatilidade artística única. Nos palcos, soma 29 peças de teatro e repertório impressionante: “Tartufo”, ao lado de Paulo Autran; “Tiro ao Alvo”, com Marco Nanini; “Quase 84”, de Fauzi Arap; “A Partilha”, de Miguel Falabella; “Monólogos da Vagina”; e “Os Inconquistáveis”, de Mario Vargas Llosa, entre muitas outras montagens de prestígio. Sua excelência técnica e entrega em cena renderam-lhe 18 prêmios ao longo da carreira, incluindo o Prêmio Governador do Estado de São Paulo como Melhor Atriz de Teatro, além de láureas como o Qualidade Brasil e o Super Cap de Ouro. Recentemente, sua força dramática ultrapassou fronteiras: Claudia conquistou o prêmio de Best Performance (Melhor Atriz) no NZ WebFest 2025, tradicional festival de webséries realizado na Nova Zelândia. Ela consagrou-se como protagonista da série brasileira “Queen Lear” (Canal Demais), interpretando uma releitura visceral da obra clássica de Shakespeare. A produção também arrebatou os troféus de Melhor Edição e Melhor Série Narrativa Internacional no circuito mundial.
Longe das câmeras e dos refletores, Claudia ergueu uma sólida carreira literária e visual. Autora de 6 livros publicados — com destaque para as coleções de poesia e pesquisas teatrais —, lançou seu trabalho de estreia, “Maga Neón”, em 1988, pela prestigiada editora Massao Ohno. Em seus textos, aborda temas como o feminino, o desejo, a espiritualidade, a memória e a busca por liberdade. A obra “Sutil Felicidade”, por exemplo, reúne poemas acompanhados de aquarelas e pastéis de sua autoria, revelando um diálogo íntimo entre a palavra e a imagem. Como artista plástica, levou essa sensibilidade visual também para o design: em 2003, lançou a coleção de joias “A Poesia é de Ouro”, em parceria com Lea Nigri, seguida pela coleção “Chacras”, com Rox Scozzy. Atualmente, Claudia debruça-se sobre um novo e ambicioso projeto teatral: a escrita de uma peça autoral que entrelaça seus poemas à imensa coleção de diários que produz initerruptamente desde os 13 anos de idade. Em uma estante repleta de memórias registradas no papel, o novo texto aborda com coragem a violência contra a mulher e celebra a beleza intrínseca de ser mulher no mundo contemporâneo.
Consolidada como símbolo de beleza e atitude nas décadas de 80 e 90, ela enfrentou um dos seus maiores desafios em 2023, quando foi internada em estado grave devido a uma infecção bacteriana após uma cirurgia na coluna, enfrentando complicações severas como septicemia. Em vez de esconder a fragilidade, Claudia optou por compartilhar sua recuperação com o público, transformando a dor em uma mensagem aberta sobre cuidados, limites e o processo de envelhecer. Em suas redes sociais, onde se apresenta como “Atriz & Poeta”, compartilha registros com naturalidade e orgulho, acompanhados de reflexões sobre gratidão, fé, sensualidade e aceitação. "Ser forte é levantar sabendo que você talvez precise de mãos estendidas", lembra. Entre cicatrizes e retomadas, ela propõe uma conversa honesta sobre viver sob os holofotes – e fora deles.
Nascida em São Paulo em 12 de julho de 1950, aos 76 anos, Claudia é mãe de dois filhos, Yann e Crystal, frutos de sua união com o produtor Boris Galperin, com quem foi casada entre 1987 e 2000. A maternidade sempre caminhou lado a lado com a rotina intensa de ensaios, gravações, viagens e escrita. Colegas de cena descrevem Claudia como uma presença vibrante nos bastidores: entre maquiagens e figurinos, guardam lembranças de discussões apaixonadas sobre política, estética e feminismo, além de um acolhimento carinhoso a jovens atores. Uma artista que faz da convivência humana uma extensão natural de sua obra.
A Claudia da capa da Extraordinária é uma pensadora do feminino maduro. Se no passado sua imagem foi associada à sensualidade televisiva, hoje ela reivindica o protagonismo da mulher que se recusa a ser invisibilizada pelo tempo: "A maturidade é o luxo de ser quem se é, sem pedir desculpas". Com pós-graduação, dezenas de prêmios, livros e uma trajetória impecável que une a erudição da USP ao apelo popular da televisão, Claudia Alencar não se detém em retrospectivas triunfais. Continua estudando, escrevendo, criando joias, atuando no cinema e no teatro e gestando novos espetáculos. Na capa desta edição, Claudia surge como a síntese da mulher extraordinária que atravessou a fama, a doença, a maternidade, o palco e a página em branco. Sua vida continua sendo uma tese viva e em movimento: a de que a arte, o pensamento crítico e a poesia são as formas mais altas de resistência e sobrevivência
Ao longo de mais de quatro décadas de trajetória, Claudia Alencar acumulou reconhecimentos expressivos, como o Prêmio Governador do Estado de São Paulo, o Qualidade Brasil e o Festival de Cinema de Petrópolis, além de homenagens pelo conjunto da obra. Contudo, ao mirar o futuro, recusa-se a permanecer em retrospectivas triunfais: prefere o movimento continuo de olhar adiante. A atriz continua estudando, escrevendo, aceitando novos papéis, desenhando projetos de livros e palestras, muitas vezes abordando temas como arte, superação, espiritualidade e feminilidade contemporânea. Em tempos de rotinas aceleradas e consumo rápido de conteúdo, Claudia defende o aprofundamento, o ensaio, o silêncio necessário para criar. “Nada substitui o encontro entre ator e plateia”, costuma dizer. É nesse encontro que ela sente, de forma concreta, que não está sozinha – e que o público também não está.
Claudia continua escrevendo uma tese, viva e em movimento: a de que a arte, o pensamento crítico e o afeto são formas de resistência – e de extraordinária sobrevivência. |
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Revista Extraordinária
em 21/08/2026 às 02:07